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:: Pais


 
PAIS AMIGOS OU AMIGOS PAIS?

 

O que quis falar e não falei...

Lá estava eu, sentada ao lado de duas feras do direito em pleno ar. Quando perguntada sobre alguma coisa, respondo: - cada uma deve cumprir seu papel e os pais têm de cumprir os deles, pois são pais e não devem se comportar como amigos... Isso gerou um certo mal-estar em mim quando dois dos convidados discordaram, um ao telefone e o outro que se encontrava ao meu lado. Na televisão é assim, você fala e não tem tempo para se explicar, o que me tirou do “sufoco” foi o fato do apresentador entender... Ui, ainda bem!
Pensando no episódio desta semana e, com vontade de explicar o que não tive tempo, vamos começar pesquisando os sinônimos:
Pai – genitor, benfeitor, protetor, gerador, origem.
Amigo – pessoa a quem somos ligados por um laço de amizade, isto é, afeição, afeto, ternura, vínculo.
Agora vamos à explicação do dito comentário que fiz: Quando disse que os pais têm de ser pais, quis dizer que eles também podem ser pais amigos e não apenas amigos como ficou subentendido.
Mas por que não devemos ser amigos de nossos filhos? Não disse que não devemos ser amigos de nossos filhos, disse que devemos ter uma postura a princípio de pais. Nossos filhos (as) se sentem mais seguros com a imagem de ídolos, que formam de nós, pais. Eles confiam nesses pais.
Os próprios filhos (as) não querem um amigo pai, porque amigos eles já os têm; amigo é aquele com quem ele confidencia suas questões do dia-a-dia, com os amigos ele trama suas paqueras, suas saídas, como vai ser, como não vai, com amigos ele senta num bar, numa lanchonete, são com os amigos que eles “colam” na escola, são com amigos que eles se identificam na questão das angústias e por aí vai.
Quando o pai quer ser amigo e deixa a função maior, principal, de lado, quando esses mesmos pais vão observar um comportamento inadequado, uma postura fora do padrão de boas maneiras, esse mesmo filho (a) pode argumentar: - mas você sempre foi ao bar comigo, sempre fumou comigo, sempre tramou situações mentirosas comigo. Aí se dá a confusão, e você pode ter se metido nela por achar que era amigo e se comporta como amigo, e quando seu filho (a) precisar de um dos pais, a quem ele recorrerá?
Os filhos (as) normalmente querem ser no futuro o que seus pais foram, não o que seus amigos foram.
Os filhos (as) têm de ter respeito pelos pais e isso se dá quando aprendem que existe uma diferença aí. O respeito que nossos filhos (as) têm por seus amigos é muito diferente do respeito que eles (as) têm pelos seus pais. Espera-se...
Lembremos que sempre que estamos passando por uma situação difícil, por uma aflição, uma angústia, chamamos pelos nossos pais, isso desde a infância até a velhice. Uma das coisas que mais presenciei quando trabalhava num hospital era o doente, de todas as idades, chamar: Mãe... mamãe; Pai... papai.
Quando o paciente está em pleno delírio e na mais forte de suas dores e medos, ele está sempre evocando seus pais, seus pais amigos e não seus amigos pais... chamamos pelos pais por conta de que não há maior segurança do que a que encontramos neles.
Necessitamos de pais muito mais que dos amigos; ao menos eu nunca ouvi algum paciente chamar pela amiga (o) antes de clamar os pais.
O amor dos pais é essencial para a criança se desenvolver com saúde física e mental, para ser, quando adulto, uma pessoa equilibrada e inserida harmoniosamente no meio social.
Por que então essa preocupação em sermos amigos de nossos filhos? Somos mais que amigos, muito mais, somos Pais.
Não estou eu querendo tirar o valor dos amigos, ao contrário. Acho que ter amigos é maravilhoso e também nos ajuda na formação, mas nada se compara a nossos pais.
Acredito que quando se tem conflitos não resolvidos com nossos pais, não reconhecemos a importância deles em nossas vidas, mas quando um dia mais à frente, você compreender/elaborar esta situação, perceberá... muitas vezes os filhos (as) passam por situações de não entenderem seus pais e com isso colocam que, ao serem pais, na sua futura paternidade, esta fala: “eu quero ser amigo de meu filho” e se esquecem da importância do amor e dos limites que só os pais podem impor, e por fim esquecem-se da importância do ser Pais.
Imagine você com seus pais lhe contando os problemas de ordem sexual, emocional, suas angústias matrimoniais. Você iria se chocar, pois você está sempre pensando/acreditando que seus pais são assexuados. Então, não dá pra ser amigo pai de seu filho. Ele, seu filho (a) não quer saber disso... Ele (a) quer seu herói, sua heroína...
Filhos (as) querem pais, precisam dos pais. Insisto: Pais são muito mais que amigos.
Vamos perguntar a eles se nos trocariam de papel de pais por papel de amigos?

Walnei Arenque
Psicóloga

(Fonte: Revista da Zona Norte, nº. 85, pg. 22, agosto/2008



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